terça-feira, 1 de dezembro de 2009

A Globo e Robin Williams

A Rede Globo é capaz de cometer as maiores gafes do telejornalismo com a cara mais lavada do mundo e ainda achar razão nas baboseiras conclusivas que algumas de suas matérias em telejornais veiculam. Reparem na situação...
Ontem a noite foi exibido do Jornal da Globo uma pequena reportagem, pequena mesmo, ao que tudo indica só para preencher o tempo do jornal(na falta do que noticiar, preenche com fofocas sobre celebridades hollywoodianas, é claro), sobre a entrevista do comediante Robin Williams no David Letterman, onde Williams solta uma piada sobre a escolha do Rio de Janeiro para ser sede das Olimpíadas, em detrimento de Chicago, capital norte-americana também em competição pelo título. Na declaração de Williams, a cidade americana teria errado de estratégia ao escolher Oprah Winfrey e a primeira-dama Michelle Obama como porta-vozes, afinal não havia como competir com o Brasil já que nosso país havia enviado strippers. Como uma criança birrenta, competitiva, incoerente em suas contra-argumentações, os responsáveis pela matéria resolveram logo em seguida mostrar mais trechos da entrevista onde Williams faz referência ao mico que Tom Cruise pagou no sofá da Oprah em 2005(e que mico!) e o fato(acreditem! O que é que uma coisa tem a ver com a outra? Será que imaturamente e irresponsavelmente a Rede Globo sugeriu que Williams estivesse drogado?) de que Robin havia estado em clínicas de reabilitação para se livrar da cocaína.

Posso até admitir que vendo a entrevista na íntegra e a depender do contexto, posso me sentir ofendido pelas declarações de Robin Williams, mas reagir da maneira irracional e, repito, irresponsável da equipe do Jornal da Globo que exibiram a trechos da entrevista, repleto de ironias, insinuações, nem nos meus dias menos inspirados! Todos conhecemos o humor-metralhadora do Williams, que por sinal me agrada muito(já disse aqui que gostaria muito que ele apresentasse o Oscar um dia, já que é o cara mais engraçado da face da Terra), e sabemos que o ator sempre tem um porque para suas insinuações maldosas, afinal é disso que o humor vive, de tirar sarro do senso comum de uma comunidade, da mentalidade de um país. Além disso, nós brasileiros temos parar de nos sentirmos ofendidos como pobres donzelas de um mundo desenvolvidos, porque esta é sim a imagem que passamos ou que passam de nosso país e sabemos que habitos, culturas são difíceis de serem modificados quando enraizados, portanto a opinião Robin (se é que é assim que podemos chamar sua declaração) nada mais é do que o reflexo da concepção de Brasil que os americanos foram habituados a interpretar desde a mais inocente idade. E vai dizer que nós também não demonstramos preconceitor nas entrelinhas de uma piada sobre Portugal ou qualquer gozação que envolva outro país? Será que somos tão politicamente corretos assim? Entendemos o mundo com tamanha harmonia e complexidade que nossas opiniões não refletem estereotipações equivalentes a verificada na declaração de Williams? Creio que não.

Williams pode ter escorregado na banana? Pode. A piada pode ter sido de mal gosto dentro do contexto? Pode. Mas existe razão para esta reação tresloucada nossa?

Para completar ainda tive que ouvir um sonoro humpf da bova de William Wack...Ninguém merece, Rede Globo. Amadorismo, não!

segunda-feira, 30 de novembro de 2009

Nine é um evento!

Não me canso de me declarar embasbacado pela proeza de Rob Marshall em reunir um elenco tão inebriante quanto o de "Nine": Daniel Day-Lewis, Marion Cotillard, Penélope Cruz, Judi Dench, Nicole Kidman, Sophia Loren, Kate Hudson e Fergie, sem esquecer de mencionar a concessão que atores como Day-Lewis, Loren e Kidman abriram para o diretor, fazendo questão de participar do musical, Daniel é conhecido pelo longo espaço de tempo entre seus filmes, Loren aparece cada vez menos no cinema e parece não ter intenção alguma em retornar e Nicole teve sua filha apenas um mês antes dos ensaios começarem, ou seja "Nine" é assumidamente um EVENTO cinematográfico, afinal quando que veremos isso acontecer de novo? Nas sábias palavras da própria Pennie(permitam-me, Penélope Cruz), Rob Marshall é um sábio por conseguir administrar um elenco com tanta mulher junta onde, certamente, não havia silêncio no set, e é tão bom perceber que todas se deram tão bem. Quantas vezes isto pode acontecer novamente?
Abaixo entrevista do elenco e terceiro trailer do filme(desta vez com diálogos):

domingo, 29 de novembro de 2009

Deixe ela entrar


O roteiro de "Deixe ela entrar" cruza o destino de duas crianças excluídas da sociedade pelas circunstâncias que as cercam. Uma é vítima de buling na escola e a outra é simplesmente isolada de todos por sua condição, ela é um vampiro. Desta maneira, Tomas Alfredson utiliza a mitologia vampírica a favor da narrativa e justificadamente no relacionamento das personagens, enriquecendo a trama, ou seja o fato de uma das personagens apresentar esta condição de vida é justificável narrativamente e está a serviço da história e não jogada de maneira desajeitada e sem propósitos na história(ouviram fãs de"Crepúsculo"? - ai meu deus, mais um briga que estou comprando...).
O roteiro é delicado e ao mesmo tempo apavorante, não deixando de lado a tradição acerca do tema, apesar de que esta não é o propósito principal de Alfredson utilizar vampiros em sua trama. Aqui o tema principal é o emocionante encontro de duas almas solitárias e extremamente tristes que encontram um no outro uma motivação para seguir em frente e superar ou conviver com suas limitações. De uma certa forma, em seu desfecho, Alfredson acalenta as almas aflitas ao deixar bem claro que em algum momento de nossas vidas surgirá alguém especial para segurar nossa mão nesta desafiante rota da vida e que só é preciso ter a percepção e sensibilidade para saber quem é esta pessoa, confiar nela e deixá-la entrar em nossas vidas.
Com um roteiro impecavelmente bem construído, Alfredson apresenta neste filme uma enorme sabedoria na direção, sabendo contornar as limitações técnicas de sua produção a seu favor, assim como não há rios de dinheiro para serem desperdiçados em efeitos especiais impressionantes, Alfredson sabe posicionar sua câmera estrategicamente e simular uma rápida escalada da personagem central ou o ataque da mesma a mais uma de suas presas, simplesmente espetacular. Tomas Alfredson sabe utilizar a câmera e acrescentar elementos a sua história, não se conformando apenas em reproduzir as páginas do roteiro, o que é fabuloso e enriquecedor a qualquer projeto que ele assuma, trazendo identidade e estilo a suas obras(nem preciso dizer que estou salivando por sua parceria com Nicole Kidman e Gwyneth Paltrow no drama "The Danish Girl", né?).
A fotografia e recursos como maquiagem são absurdamente eficientes, assim como seus atores, sobretudo as crianças que protagonizam a trama , Kare Hedebrant e Lina Leandersson, são ótimas.
Enfim, em tempos da pretensa profundidade crepuscular, Tomas Alfredson conquista e emociona, com muita simplicidade, cinéfilos de todos os cantos do mundo, com uma trama que utiliza de forma justificável toda a mitologia vampírica a favor de uma história de amor, amizade, solidão e infância.
Nota: 8,5

Lat den ratte komma in, 2008. Dir.:Tomas Alfredson. Elenco: Kare Hedebrant, Lina Leandersson, Per Ragnar, Henrik Dahl, Karin Bergquist, Peter Carlberg, Ika Nord, Mikael Rahm, Pale Olofsson.

O Maior Espetáculo da Terra

Existem filmes que ficam congelado em seu tempo, é o caso de "O Maior Espetáculo da Terra" do mestre do espetáculo cinematográfico, Cecil B. De Mille.
Creio que o longa faz mais sentido no ano em que foi lançado do que agora, já que suas longas horas destinadas a números de circo e desfiles temáticos já não deixam mortal algum de queixo caído. Hoje, aquilo não surpreende ninguém e, sinceramente, existem diretores capazes de fazer bem melhor. Mas não nego que em determinados trechos me vi preso a uma garotinha amazonas ou a alegorias que sugeriam a França de Maria Antonieta, mas só, foram poucos estes momentos.
Pouco entendi o prêmio dado ao roteiro do filme já que o mesmo é bem superficial, apresentando os personagens de maneira maniqueísta e bastante simplista(ninguém me diga que isto é reflexo do tempo, porque Alfred Hitchcock dirigia roteiros extraordinários na mesma época). Também pouco entendi a presença de James Stewart como um palhaço de passado misterioso, quando o mesmo é revelado a todos os personagens e ao público nenhuma emoção é esboçada e o mistério em nada ajuda a trama.
O filme mostra que existem filmes antigos que sequer merecem a alcunha de clássicos, muito menos utilizando-se como escudo um desmerecido prêmio Oscar de melhor filme. Enfim, equívoco de uma época que confundiu o ineditismo de uma beleza visual e um roteiro novelesco com um bom filme.

sábado, 28 de novembro de 2009

Do Começo ao Fim


Logo quando "O Segredo de Brokeback Mountain" saiu detectei nele uma falta de credibilidade no romance gay entre Heith Ledger e Jake Gyllenhaal que comprometeram e muito a credibilidade da história do casal. Não que dois atores considerados galãs na nova geração de astros do cinema não pudessem protagonizar uma trama com este viés, mas venhamos e convenhamos que para acreditar nisso é preciso que todo o ambiente a sua volta contribua, e é justamente neste aspecto que o filme de Ang Lee e este novo de Aluísio Abranches, "Do Começo ao Fim", tudo nele é muito clean, esteticamente limpo, parece que estamos em um outro plano, nada é palpável, na melhor definição: é um comercial de colchão voltado para o público gay.
O longa narra a história dos irmãos Tomaz e Francisco, filhos de pais diferentes, mas nascidos da mesma mãe, que desenvolve uma estreita relação que aos poucos beira ao relacionamento amoroso como um casal. O filme é impregnado de polêmicas cenas de sexo e o entrosamento entre os irmãos parece óbvio desde o início, mas em momento algum o assunto é tratado de maneira direta, sem grandes poesias, que por sinal só tornam o longa mais artificial ainda. Há uma única cena em que o diretor sugere a abordagem da homossexualidade entre seus protagonistas de maneira franca e este é monopolizado pela formidável Júlia Lemmertz em uma conversa que tenta propor com seu primogênito.
A trilha sonora de "Do Começo ao Fim" surge sempre de forma inoportuna e a edição é conduzida abruptamente por todo o filme. Podendo também ser encarado como uma espécie de metáfora para explicar a forte ligação entre fraternos, "Do Começo ao Fim" ganha uma interpretação mais favorável e passa até a ser delicado e pungente, mas como longa dedicado a abordar a homossexualidade e suas vertentes ou mesmo o drama familiar cai parece mais feito por encomenda para causar polêmica. Uma pena já que os filmes anteriores de Abranches são ótimos em suas devidas abordagens, "As Três Marias" e "Um Copo de Cólera".
Nota: 5,0
Do Começo ao Fim, 2009. Dir.:Aluísio Abranches. Elenco: Júlia Lemmertz, Fábio Assunção, João Gabriel Vasconcellos, Rafael Cardoso, Gabriel Kaufmann, Lucas Cotrin, Louise Cardoso, Jean Pierre Noher.

Julie e Julia


"Julie e Julia" tem momentos deliciosos, bem verdade que todos eles são protagonizados por Meryl Streep, mas é um filme que sofre pela falta de consistência do insosso roteiro adaptado de Nora Ephron que, além de dominar a narrativa com acontecimentos banais e pouco interessantes para a platéia, jamais nos demonstra de maneira precisa a importância de Julia Child(Meryl Streep) na vida da blogueira e burocrata Julie Powell(Amy Adams) e as transformações da experiência proposta por esta em sua página virtual na sua vida.
"Julie e Julia" inicia sua trama de maneira impecável, a diretora consegue trabalhar com a história de cada uma das personagens como poucas conseguiriam, sabendo fazer a transição entre os dois segmentos da trama com ritmo, porém em certo momento da trama, Ephron preenche seu filme de momentos desnecessários e pouco produtivos para a evolução de seus personagens, fazendo com que seu filme torne-se uma sucessão de acontecimentos irrelevantes para seu público.
Amy Adams dá continuidade a um tipo de personagem que já está se tornando uma rotina em sua carreira(sinto necessidade de Adams fazer uma mudança radical em sua carreira ou interpretará eternamente o tipo mocinha delicada e sensível). Já Meryl Streep está fantástica e muito engraçada como a sempre otimista e alegre Julia Child, um timing para comédia perfeito que em momento algum a faz perder a humanidade e a credibilidade de sua peronagem.
Optando estranhamente por desmistificar uma concepção que ela mesma criou de Julia Child, Nora Ephron traz uma informação importante para a platéia sobre o único contato, indireto por sinal, que Julie Powell teve com Julia Child, trazendo um desfecho estranho e pouco condizente com as expectativas do público(aquele tipo de informação jogada durante o filme mas que não traz para o público uma continuidade da mesma, sabe? Então para que jogar esse tipo de coisa no colo da platéia de maneira tão desajeitada?). "Julie e Julia" é o tipo de filme que segue a linha oposta da maioria, inicia muito bem e vai gradualmente perdendo a qualidade e o interesse do público pelos seus personagens e acontecimentos. Mas não posso negar que, mais uma vez, Meryl Streep está impecável, e quem pode? Mas o filme...Um pouquinho decepcionante.
Nota: 6,5
Julie and Julia, 2009. Dir.: Nora Ephron. Elenco: Meryl Streep, Amy Adams, Stanley Tucci, Chris Messina, Jane Lynch, Linda Emond, Helen Carey, Mary Lynn Rajskub, Vanessa Ferlito, Casey Wilson, Jillian Bach.

sexta-feira, 27 de novembro de 2009

O Solista

Existe sensibilidade em "O Soloista", característica marcante da filmografia de Joe Wright, e por mais que o espectador detecte os tropeços da condução do cineasta, todas as falhas são perdoadas diante do desfecho dramaticamente intenso e verdadeiro do filme e das performances gloriosas de Robert Downey Jr. e, para minha surpresa, de Jamie Foxx, uma figura que sempre surge irritante em tapetes vermelhos, mas que aqui entrega um dos trabalhos mais comoventes de sua carreira.
Diretor de romances ingleses bem-sucedidos como "Orgulho e Preconceito" e do indicado ao Oscar "Desejo e Reparação", Joe Wright se aventura neste conto real norte-americano chamado "O Solista" sobre um jornalista que encontra na figura de um morador de rua esquizofrênico e com uma incrível sensibilidade para a música, a humanidade e a solidariedade.
Nos EUA a crítica soltou o verbo e não poupou Joe Wright críticas negativas a este trabalho. Em parte elas estavam certas, já que a direção de Wright apesar de proporcionar momentos belíssimos, de tocar o coração mesmo(vide a sequência em que o personagem de Foxx, ainda jovem, vê da janela de sua casa a violência e utiliza seu violoncelo para extravasar toda sua angústia interior ou na sequência em que Wright oferece um panorama por Los Angeles, intercalada com a música do personagem), ele escorrega em outras tantas durante a projeção que por vezes parece impregnadas de prepotência, querendo dizer muito mais do que dizem, sem falar que o roteiro Susannah Grant parece arrastado.
Mas de maneira alguma "O Soloista" é um desastre cinematográfico de grandes proporções, cujos defeitos se sobrepoem a momentos de simples e sincera emoção, captadas por Wright em cenas singelas, discretas, mas de uma grandiosidade emocional absurda, como é o caso daquela em que Nathaniel Ayers(Foxx) parte com tudo para cima de seu amigo, o jornalista vivido por Downey Jr., ao descobrir em um documento que as pessoas o diagnosticavam como um esquizofrênico, ou a formidável sequência em que o personagem de Downey desabafa com sua ex-mulher, personagem de Catherine Keener(estupenda!) sobre a frustração de saber que nunca conseguirá curar definitivamente Nathaniel. No fim, "O Solista" deixa uma interessante reflexão sobre a solidariedade e a triste constatação de que a mudança do estado de coisas muitas vezes não está em nossas mãos, de que muitas vezes não podemos ajudar a salvar alguém que precisa desesperadamente de ajuda, porque simplesmente não podemos, não está a nosso alcance. O jornalista Steve Lopez(Downey Jr.) pode não ter encontrado a cura para a doença de Foxx, mas certamente sua amizade transformou a vida daquele homem de alguma forma, e a sua também.
A performance de Jamie Foxx desmistifica boa parte de minha concepção sobre o ator. Foxx mostra-se em "O Solista" como um ator sensível, ciente do poder que a emoção pode alcançar na telona, interpretando um esquizofrênico sem estereotipações e repleto de humanidade, uma interpretação indubitavelmente comovente e poderosa. Robert Downey Jr. o acompanha em uma interpretação mais discreta, porém igualmente complexa, trazendo ao jornalista Steve Lopez um carisma inegável e empregando em seu personagem as emoções adequadas, no momento adequado, demonstrando a profunda admiração e carinho que o personagem sentia pelo morador de rua, carinho que em momento algum soa artificial, perfeito.
Em "O Solista", Joe Wright mais uma vez encontra na simplicidade e nas emoções a chave para o sucesso de sua direção. Robert Downey Jr. e Jamie Foxx têm uma excelente parceria neste filme, recheado de momentos em que os atores brilham e comovem o público com as dores de seus personagens. O filme é uma sensível obra sobre a solidariedade e a amizade, retratando-as de maneira verdadeira, através de suas frustrações e alegrias.
Nota: 8,5
The Soloist, 2009. Direção: Joe Wright. Elenco: Jamie Foxx, Robert Downey Jr., Catherine Keener, Tom Hollander, Lisa Gay Hamilton, Nelsan Ellis, Rachael Harris, Stephen Root, Justin Martin, Lorraine Toussaint.